Menção Honrosa António Torrado
Uma História a Sério
Escritor: David Machado | Ilustrador: David Pintor
Editora: Caminho | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 44
Resenhista: Rui Marques Veloso
Esta é uma deliciosa narrativa, marcada por um sentido de humor apurado, capaz de cativar a criança e o adulto. O eterno binómio realidade/imaginário perpassa o texto, gerando o riso face ao absurdo das situações cómicas. O ritmo endiabrado, com que sucedem as situações inesperadas, prende o leitor até à pausa final – o natural (?) alheamento dos pais, “agarrados” ao telemóvel, perante a confusão presente num tempo e num espaço fantásticos.
A imaginação visual da criança, habilmente convocada pelos autores, absorve, qual mata-borrão, todos os pormenores e todo o nonsense que percorre a narrativa.
Com um saber cirúrgico, os autores conseguem utilizar duas linhas dinâmicas, uma preenchida pela realidade ficcionada, outra por uma delirante e rapidíssima sucessão de acontecimentos que se cruzam para gozo absoluto do leitor. A parceria David Machado e David Pintor, que já surgira em O Alfabeto Nojento e os Números Nojentos, prova claramente que o génio criativo pode e deve materializar-se em obras que alimentam a imaginação e o humor, tornando a criança mais inteligente, perspicaz e com um sentido crítico mais apurado. Estamos perante um discurso narrativo enxuto, onde nada se encontra a mais, o que permite, por parte do leitor, fruir o puro prazer da fusão da literatura com o icónico, este com ênfase no burlesco e na plenitude dos pormenores.
Palavras-chave: família, humor, imaginação, aventura, acção.
Imagem-chave: páginas 28 e 29
Selo Distinção 2025
Ão Ão
Escritora: Joana Estrela | Ilustradora: Joana Estrela
Editora: Planeta Tangerina | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 56
Resenhista: Iêda Alcântara
Imagina uma menina que gosta muito de animais. Que tem dois gatos. E que vai passar uns dias numa quinta com os pais e os seus companheiros de estimação.
Nunca foste a uma quinta? Então, esta é uma excelente forma de visitares uma, guiado por um cão que ladra, orienta e fala sem palavras. Porque aqui o “ão ão” não é apenas um latido. É linguagem. E é também olhar. É o cão quem conduz esta viagem sonora e visual por cada canto dessa quinta.
As onomatopeias criam ritmo e atravessam a banda desenhada como música. Cada página vibra entre o silêncio do desenho e o rumor do campo e dos animais que lá vivem. E, quando um dos gatos desaparece, é também o som, ou a ausência dele, que mobiliza todos na procura.
Em verde e branco, a autora constrói um espaço de simplicidade e humor, onde o traço parece infantil, mas é rigoroso. A quinta revela-se com economia de meios e abundância de sentidos: ver, ouvir, imaginar e até cheirar. No final, fica claro que, às vezes, um “ão ão” basta para dizer tudo.
Palavras-chave: comunicação, convívio, animais, som, escuta.
Imagem-chave: páginas 6 e 7
Contas-me?
Escritora: Inês Viegas Oliveira | Ilustradora: Inês Viegas Oliveira
Editora: Planeta Tangerina | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 56
Resenhista: Rita Pimenta
À primeira vista, parece um livro infantil para ensinar a contar, mostrando sequências como “1 ovo”, “2 orelhas”, “3 alfaces”, “4 rodas” de um automóvel… “10 dedinhos” de dois pés. No entanto, a partir daí, a sequência deixa de ser linear e passa a incluir números variados – 12 passos, 26 galopes, 231 gotas – ou até um número astronómico: 7 milhares de quatriliões, um número com 28 dígitos de átomos. Vamo-nos deixando embalar por uma sucessão de imagens a pretexto de números ou talvez o contrário, sendo o número a enviar-nos para ilustrações que prendem o olhar e libertam o pensamento. Não há uma história, mas muitas. Todas as que se quiserem imaginar, estimulando também a reflexão. Algumas páginas nem têm números específicos, mas expressões como “muitos caminhos” ou “demasiadas fronteiras”. Entre as imagens, ideias e emoções que este livro convoca, elegemos as páginas relativas a “0 quilómetros”. Nelas, queremos vislumbrar abraços de todas as cores, nações e idades. Quem sabe alguém em festa por um tão desejado e cada vez mais difícil reencontro familiar? E tanto que isso conta.
(Excerto/adaptação do texto divulgado no Público “Letra Pequena: os números também podem contar histórias”, a 17 de Janeiro de 2026)”
Obs.: Com Contas-me?, Inês Viegas Oliveira foi seleccionada para a Exposição de Ilustradores da Feira do Livro Infantil de Bolonha a edição de 2026.
Palavras-chave: números, encontros, tempo, imaginação, mundo.
Imagem-chave: páginas 44 e 45
Dez cabeças, nove chapéus
Escritora: Micaela Chirif | Ilustradora: Mercè Galí | Tradutora: Andreia Salgueiro
Editora: Alfarroba | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 36
Resenhista: Sara Reis da Silva
No livro‑álbum, a qualidade estético‑literária decorre de uma especial mestria que se materializa, não raras vezes, na economia elegante e na simplicidade sugestiva. Este volume, um numerário literário no qual diversidade e ludicidade se conjugam de forma expressiva, reflete exemplarmente estes traços. Estruturado gradativamente, com base numa sequência numérica regressiva e muito ao sabor de algumas rimas infantis tradicionais, o relato desfia‑se a partir da sucessiva “saída de cena” de protagonistas infantis, por exemplo, Gabriela, Eugénio, Alice, César ou um grupo de crianças, e das suas interações. As situações recriadas são simples e bem‑dispostas: a falta de um chapéu para uma cabeça, de um bolo para uma boca, de um lenço para um nariz e de um marcador para rodear um umbigo. Se estes objetos não chegam para todos, já o abraço de uma avó, pelo contrário, acolhe todos, todos, todos. Neste abraço amplo desta grande avó, cabem, pois, as dez crianças, como sugere a ilustração em página dupla com a qual termina o relato. As ilustrações sofisticadas e elegantes, compostas em técnica mista e a partir de recortes, linhas claras, figuras esquemáticas e planos de cor “difusos”, conjugadas com um grafismo limpo, margens generosas e uma tipografia discreta, respondem positivamente às ideias de infância, partilha, diversidade e afeto. A uma composição pictórica depurada alia‑se, assim, um design original, materializado em páginas marcadas pela leveza compositiva, que se folheiam em sentido vertical (de baixo para cima). Um livro querido e divertido.
Palavras-chave: infância, partilha, jogo, humor, afeto.
Imagem-chave: páginas 34 e 35
Espera por mim
Escritor: António Mota | Ilustração da capa: Alex Gozblau
Editora: Asa | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 288
Resenhista: Maria José Vitorino
Romance juvenil de um autor justamente muito premiado, esta obra não desilude e prende o leitor numa narrativa fluente, cheia de humor e sensibilidade, realista, positiva e atenta ao olhar e ao sentir dos adolescentes sobre si mesmos e sobre o mundo. A editora resume a história: “Saul Antonino nunca tinha feito uma viagem de comboio sozinho. Enfrentar o desconhecido era um bocado assustador. Dois ou três dias antes da partida, sonhou que o comboio parava e ele não conseguia levantar-se para sair da carruagem porque estava colado ao lugar, e quanto mais força fazia para se libertar, mais lá ficava preso. Sentia que os pés estavam colados aos ténis, e os ténis estavam colados ao chão. Estar no centro desta aventura autêntica também era muito excitante. Era bom conseguir fazer as tarefas novas sozinho. Sabia-lhe bem crescer.”
O livro, porém, é mais do que isto, como descobrimos logo nas primeiras páginas, em cada referência aos nossos tempos e aos problemas comuns à vida de tanta gente, em cada surpresa que desafia o nosso herói e aqueles que, para ele, são importantes, ou passam a sê-lo: pessoas ou coisas, como um telemóvel, uma bicicleta…
Terminamos a leitura sorrindo com Saul Antonino e ficamos à espera da continuação. Assim seja.
Palavras-chave: aventura, família, amigos, telemóvel, amor
Livre como uma nuvem
Escritor: Bai Bing | Ilustradora: Yu Rong | Tradutoras: Cuicui Cheng e Ran Mai
Editora: Trinta por uma Linha | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 36
Resenhista: Sara Reis da Silva
De rara singularidade, este livro-álbum guarda um relato simultaneamente simples e poético, colocado na voz de um “belo melro chinês” que expressa o seu (insondável) desejo de liberdade, de cantar sobre si próprio e sobre os outros, de voar como uma nuvem. O discurso, equilibradamente adjetivado, é pontuado por elementos simbólicos, como a gaiola, a floresta e as flores, que contribuem para a dicotomia-base do discurso: liberdade versus prisão. A própria composição pictórica, conjugando diferentes técnicas, tais como o desenho a traços leves e a várias cores e as formas negras compactas e recortadas, ao jeito das sombras chinesas, proporciona a leitura de diferentes camadas de sentido e a interpretação cúmplice da angústia, solidão e dilema do protagonista em comparação com os outros, com as suas diversas vidas e com o mundo em movimento. A prevalência, nas guardas iniciais e finais, da ilustração feita de linhas finas, que representam gaiolas abertas e vários pássaros que voam, é muito sugestiva. A liberdade emerge, assim, nestes espaços peritextuais, bem como ao longo de todo o texto, como eixo ideotemático fundamental desta obra, cuja mensagem, intemporal e universal, de todos e para todos, ultrapassa fronteiras geográficas e culturais.
Obs.: Edição integrada na Série Traduções do Instituto Confúcio da Universidade de Aveiro.
Palavras-chave: liberdade, opressão, autoconhecimento, identidade, solidão.
Imagem-chave: páginas 26 e 27
Mallko e o Papá
Escritor: Gusti | Ilustrador: Gusti | Tradutor: Guilherme Pires
Editora: Orfeu Negro | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 158
Resenhista: Paula Cusati
Nesta novela gráfica extraordinária, finalmente editada em Portugal, um pai ilustrador conta a história verdadeira do amor incondicional que o une ao filho, uma criança com Síndrome de Down. Gusti, autor argentino a residir em Barcelona, segue as pisadas de Miguel Gallardo que, em 2007, publicara, com a filha autista, María y io (María e Eu, ed. Asa, um volume, infelizmente, há muito esgotado).
O livro assume, desde o início, um tom íntimo, confessional, não só pela vulnerabilidade com que o narrador revela as suas expetativas e os seus sentimentos (porque um filho “às vezes, não sai como o imaginavas”) face ao nascimento e ao crescimento de Mallko nos seus primeiros seis anos de vida, mas também pelas escolhas gráficas que realiza: o texto manuscrito, as páginas rabiscadas, o uso de fotografias, os esboços, técnica mista típica de um caderno que funciona como estúdio portátil do ilustrador. Desde as guardas iniciais, com desenhos do filho, passando pela ficha técnica, onde encontramos os Beatles versão “Sindrome Down Club Band”, às tiras tipo BD e a tantos episódios do quotidiano, esta é uma obra construída com humor e ternura, capaz de cativar leitores de todas as idades. Um livro que conta também como Mallko se relaciona com os outros e como os transforma, mostrando-nos os seus interesses, atividades e objetos preferidos, como toda e qualquer criança que quer “caminhar com passo firme pela terra”.
Obs.: Edição apoiada pelo Institut Ramon Llull e do PRR, no âmbito da medida Internacionalização, Modernização e Transição Digital do Livro e dos Autores. Integra a coleção Orfeu Mini.
Palavras-chave: filho, pai, Síndrome de Down, amor, família.
Imagem-chave: páginas 112 e 113
Musgo
Escritor: David Cirici | Ilustradora: Catarina França | Tradutores: Cristina Rodriguez e Artur Guerra | Capa: Wonder Studio/Ana Teixeira
Editora: Fábula | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 156
Resenhista: Rui Marques Veloso
Esta é uma narrativa emotiva, protagonizada Musgo, um cão que, num cenário de guerra, perde a sua família humana e que, anos depois, numa procura incansável, reencontra as crianças que nela o acarinharam. A opção do autor por uma narrativa de primeira pessoa traduz a clara intenção de centrar em Musgo toda a força dramática deste romance juvenil. O leitor identifica-se facilmente com a personagem, já que esta se afirma com valores estruturantes como a coragem, a memória, a esperança e, sobretudo, o amor. Musgo, um animal que sofre profundamente com o roubo do seu espaço físico e afectivo que a guerra provocou, luta pela sobrevivência na secreta convicção de recuperar o carinho dos humanos que foram a sua família. As aventuras sucedem-se, mas a esperança é a força anímica que o leva a não desistir. Um final feliz vem demonstrar ao leitor que não podemos perder a coragem, malgrado as circunstâncias duras e a violência insensível que campeia em cenário de guerra.
O discurso narrativo é seguro, bem elaborado, gerindo a expectativa com grande sensibilidade, levando o leitor a uma identificação com o protagonista, quase desejando afagar aquele cão. Há valores universais que aqui se encontram plasmados e que são estruturantes. Não somos os mesmos depois de ler esta obra, particularmente quando somos jovens e queremos mudar o mundo. Há animais que são marcantes na infância e juventude de qualquer um de nós e, no caso vertente, tendo em conta o contexto histórico, este romance ganha um peso muito significativo.
Obs.: Prémio EDEBÉ de Literatura Infantil (Espanha), Atrapallibres Award (IBBY Espanha), Prémio Nazionale Un Libro Per L’ Ambiente (Itália) e Stregga Award (Itália).
Palavras-chave: lealdade, amor, guerra, sobrevivência, memória.
Imagem-chave: página 37
O Tempo do Cão
Escritor: Ondjaki | Ilustrador: António Jorge Gonçalves
Editora: Caminho | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 138
Resenhista: Paula Cusati
Obra memorável, que escapa às habituais classificações de género, não é banda desenhada nem poema ilustrado. Apresentada pelos autores e pela editora como uma novela gráfica, cremos que se encontra próxima do livro de artista, ou melhor, de artistas, dada a cumplicidade e plena coautoria da dupla luso-angolana neste seu terceiro livro.
Num tempo de guerra, no Congo, à beira do lago Tanganica, um guerrilheiro, de nome Guevara, encontra um cão abandonado, “de olhos bem abertos”, “de olhos muito atentos”, “de olhos ensolabertos”, que é rapidamente adotado pelo batalhão. Os humanos partilhavam com o canino a água, o pouco leite e a comida, e, à noite, uns e outro sonhavam sonhos semelhantes. Na aridez e no vazio desse tempo finito, a amizade e a ternura entre estes dois seres faz com que quase se fundam, irmanados na solidão, no cansaço e no medo. Cão e guerrilheiro são ambos protagonistas e narram alternada e, por vezes, conjuntamente, a sua história.
Baseado numa história real, escutada num documentário, a narrativa assume toda a liberdade criativa do diálogo artístico, num processo fluido de influências mútuas entre o escritor e o ilustrador, durante as suas quatro versões (a primeira em 2008 e a final em 2024), inscritas com data e hora na penúltima página do livro.
Com capa dura, de um vermelho rosado, de tamanho pequeno, quase livro de bolso, com papel de gramagem alta, as páginas, de um azul forte, guardam o traço incerto, a tinta branca, riscada ou soprada, que, por vezes, escorre, esboça e rabisca. As escolhas ilustrativas revelam intensamente a perspetiva canina e o companheirismo entre o animal e o humano. O belíssimo texto, conciso e poético, de Ondjaki também é desenhado, ou melhor, escrito à mão por António Jorge Gonçalves, correspondendo ao cão a letra cursiva e a Guevara as maiúsculas.
Em suma, tudo, neste livro, concorre para a evocação onírica dos encontros e das despedidas que marcam uma existência.
Palavras-chave: amizade, guerra, cão, guerrilheiro, saudade.
Imagem-chave: páginas 32 e 33
Sem Desvios
Escritora: Stéphanie Demasse-Pottier | Ilustrador: Tom Haugomat | Tradutora: Joana Cabral
Editora: Orfeu Negro | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 44
Resenhista: Iêda Alcântara
Este é um livro que se constrói pela lógica da insistência, avançando pela força de um caminho repetido e partilhado no quotidiano. A premissa é de uma simplicidade desconcertante: na ida diária para a escola, mãe e filha passam sempre por uma senhora sentada no chão, com um bebé nos braços. Este encontro, que se repete dia após dia, transporta um desconforto que a autora escolhe não ignorar nem resolver de forma artificial.
Com uma escrita mínima e quase silenciosa, a obra recusa a moral mastigada ou a aprendizagem declarada, preferindo centrar-se na presença e na continuidade. Num mundo onde é sempre mais fácil mudar de passeio ou acelerar o passo, o livro propõe o contrário: permanecer. Reconhece, com honestidade, o limite da ação individual e afirma a importância de agir dentro do que está ao alcance de cada um.
As ilustrações desempenham um papel estrutural, apoiando-se numa paleta reduzida, dominada por vermelhos e azuis, que define o tom emocional e transforma o trajeto banal numa experiência de densidade poética. A alternância entre planos recortados e páginas duplas mais abertas cria um ritmo que ecoa o próprio caminhar das personagens e reforça a ideia de movimento e permanência.
É, acima de tudo, um livro que confia na criança. Não a convoca para ser agente de consolo nem a sobrecarrega com a responsabilidade de resolver o mal-estar social. A criança simplesmente age, sugerindo que pequenos gestos, ainda que não resolvam o mundo, podem alterar um dia.
Obs.: Integra a coleção Orfeu Mini
Palavras-chave: presença, quotidiano, desconforto, permanência, social, infância.
Imagem-chave: páginas 12 e 13
Para Sempre
Escritora: Assia Petricelli | Ilustrador: Sergio Riccardi | Tradutora: Joana Burnay
Editora: : Fábula | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 160
Resenhista: Margarida Costa
É uma banda desenhada sensível e honesta, capaz de captar com grande subtileza a atmosfera da adolescência e a força avassaladora dos primeiros afectos. A ação decorre no verão, numa estância balnear onde acompanhamos Viola, uma jovem que passa as férias com os pais, reencontra um grupo de amigas e acaba por cruzar o seu caminho com Ireneo. À partida, tudo parecia indicar que não se entenderiam, mas nasce entre os dois uma ligação inesperada, mais profunda e intensa do que qualquer um deles poderia imaginar. Trata-se de uma narrativa intimista e emocionalmente densa que nunca perde a fluidez textual ou visual. A leitura faz-se de forma leve, quase silenciosa, mas permanece no leitor, sobretudo pela forma como traduz uma experiência universal, a descoberta do amor, com o deslumbramento que traz e as feridas que inevitavelmente deixa. A obra interroga o que significa amar na adolescência, como se manifesta esse sentimento, por vezes, de uma forma adequada, outras de maneira confusa ou desajustada. Em paralelo, convoca um olhar mais adulto sobre as relações, refletindo a complexidade que os jovens observam nos casais que lhes são próximos. O amor surge aqui sem rótulos de género, abrindo espaço à reflexão sobre os seus limites, as suas provas e as expectativas que o atravessam. Mais do que respostas, o livro propõe perguntas e cria zonas de diálogo com o leitor.
Visualmente, a BD aposta numa estrutura mais clássica de vinhetas, mas é pontuada por páginas que quebram esse padrão e introduzem um ritmo gráfico distinto. Em vários momentos, a ausência de texto dá lugar a sequências onde a ilustração assume plenamente a narrativa, transmitindo movimento, emoção e silêncio de forma muito eficaz, dialogando directamente com o público jovem a quem se dirige. As palavras, a existirem, serão criadas por cada leitor para si mesmo. No conjunto, Para Sempre revela-se uma obra visualmente atraente, emocionalmente envolvente e profundamente actual.
Palavras-chave: adolescência, namoro, afectos, violência, férias.
Imagem-chave: páginas 110 e 111
Selo Seleção 2025
O Dinossauro da Casa ao Lado
Escritor: David Litchfield | Ilustrador: David Litchfield | Tradutora: Lara Xavier
Editora: : Fábula | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 36
Resenhista: Rita Pimenta
Quem não quer ter um vizinho amável, mesmo que se suspeite de que guarda um segredo? Lisa não tinha dúvidas de que Wilson, que vivia na casa ao lado e fazia bolos deliciosos na pastelaria Esmeralda, era um dinossauro. A menina não se deixava convencer do contrário, só porque ele andava de bicicleta e usava chapéu e bigode. Conseguiu comprová-lo, mas não ficou feliz com o desfecho dessa descoberta e confirmação pública. Afinal, o vizinho sentia, agora, pertencer àquele bairro e só queria ser aceite na comunidade, sem deixar de guardar no coração o lugar de onde partira.
Este é um livro cuja tradução é competente e que suscita várias reflexões que, cada vez mais, se impõem nas sociedades multiculturais: a aceitação, a solidariedade, o respeito, a diferença, o sentimento de pertença e a concretização de sonhos em qualquer geografia, seja a de origem ou a de destino.
Do mesmo autor de O Urso e o Piano, que já recebeu vários prémios internacionais, explora-se aqui com mestria o efeito de “portal”, que transporta as personagens e o leitor para o tempo dos dinossauros, mas também para épocas posteriores, como as que expunham publicamente o que era considerado “aberração”.
Em alguns momentos, a ilustração, que combina técnicas tradicionais com ferramentas digitais, afigura-se excessiva, demasiado garrida e com muitos elementos, fazendo com que o leitor se disperse visualmente. No entanto, fica a suspeitar-se de que os bolos do Sr. (dinossauro) Wilson devem ser mesmo saborosos.
Palavras-chave: aceitação, pertença, integração, dinossauros, comunidade.
Imagem-chave: páginas 4 e 5
O Elefante e o Mar
Escritor: Ed Vere | Ilustrador: Ed Vere | Tradutora: Susana Cardoso Ferreira
Editora: Fábula | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 36
Resenhista: Margarida Costa
Gabriel, um jovem elefante, carrega no coração a aspiração de ajudar a sua aldeia junto ao mar. Primeiro, é pequeno demais, depois, grande demais, mas nunca deixa de acreditar. Com paciência, coragem e perseverança, constrói o seu próprio barco, guiado pela esperança de encontrar o seu lugar. Quando a tempestade chega, é Gabriel quem enfrenta o mar e salva aqueles que antes duvidaram dele.
Numa espécie de epílogo, o autor confessa que esta história é verídica e que foi inspirada num encontro, numa aldeia da Cornualha, com um velho que com ele partilhou como o sonho da sua vida se tornou realidade. A primeira ilustração do livro é precisamente a pintura da aldeia que ele realizou do alto de um penhasco. O amarelo ocre contrasta com o cinzento do mar tempestuoso, envolvendo e dando foco aos pontos cruciais da narrativa. Cheia de ação, é simultaneamente delicada na forma como celebra a identidade, o crescimento, a memória e a força de quem segue os seus sonhos com bondade e determinação.
Palavras-chave: crescimento, perseverança, coragem, determinação, mar.
Imagem-chave: páginas 12 e 13
O Gato, o Coelho e outros contos tradicionais
Escritora: Adélia Carvalho | Ilustradora: Anabela Dias
Editora: Nuvem de Letras | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 76
Resenhista: Bru Junça
Esta coletânea de contos reescritos a partir de recolhas da tradição oral portuguesa reúne narrativas bem conhecidas – tais como O Pinto Pançudo, A Velha da Cabaça ou uma versão dos Músicos de Bremen, entre outras –, já não tão presentes, quer nas reescritas, quer na memória coletiva oral. O livro revela-se apetecível para leitores autónomos, tanto pelas suas dimensões como pela extensão equilibrada de cada conto.
A autora optou por trabalhar o esqueleto narrativo de cada conto, imprimindo-lhe o seu cunho pessoal sem se alongar para além da matriz de cada conto, o que os torna “limpos” e assertivos. Reconhece-se uma abordagem contemporânea, a qual não exclui o fito da oralidade ancestral. Esta abordagem manifesta-se quer na escolha das versões base de cada conto, quer no desenrolar, quer, ainda, em desfechos que buscam não ser assépticos ou cheios de uma moralização oca. Pelo contrário, mantêm alguma aspereza e o humor do conto tradicional. Na nota introdutória, a autora expõe claramente as suas referências bibliográficas, referindo diversos autores e investigadores fundamentais para o trabalho de recolha, preservação e mapeamento do território através dos contos populares. Sublinha, assim, a importância deste espólio para a construção da obra e para conhecimento do leitor.
Ao nível da ilustração, por adotar soluções gráficas diferentes de conto para conto, o livro não consegue estabelecer um fio condutor consistente, funcionando antes como um conjunto de quadros isolados do que como um elemento unificador da obra. Trata-se de um livro que colmata a escassez de bons exemplos contemporâneos de reescrita do conto tradicional, ancorados nas versões mais antigas e respeitando a natureza da linguagem oral e simbólica. Também por isso é um bom livro para ser partilhado em voz alta em contexto escolar.
Palavras-chave: conto, tradição oral portuguesa, conto popular, colectânea, oralidade.
Imagem-chave: página 34
Ping Ping Atchim
Escritora: Maria Inês Graça | Ilustrador: Christian Inaraja
Editora: The Poets and Dragons Society | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 20
Resenhista: Sara Reis da Silva
Andar à chuva, chapinhar e saltar nas poças de água: haverá maior diversão infantil? Talvez por isso este livro-álbum cartonado prenda o olhar dos mais pequenos. O tema – a chuva que chega e transforma o quotidiano – serve de fio condutor a uma narrativa mínima, construída com evidente simplicidade lexical e sintática. A estrutura repetitiva, apoiada em paralelismos anafóricos e em onomatopeias, cria uma musicalidade expressiva, quase uma canção, que convida à leitura em voz alta. Pressente-se o eco discreto de quadras rimadas (com rima cruzada), que reforçam o jogo rítmico e o humor subtil. As ilustrações de página dupla, compostas a partir de uma técnica mista de cores vivas, gestos amplos e linhas fluidas, traduzem a alegria da infância sob a chuva. O resultado é um objeto sensível à experiência visual, sonora e emocional do bebé, onde o quotidiano se revela como movimento e descoberta do mundo.
Obs.: Código QR para acesso a audiolivro.
Palavras-chave: infância, chuva, diversão, quotidiano, ar livre.
Imagem-chave: páginas 16 e 17
Lobo Mau com Dor de Dentes
Escritor: Daniel Kondo | Ilustrador: Daniel Kondo | Adaptação do texto: Andreia Salgueiro
Editora: Alfarroba | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 52
Resenhista: Rita Pimenta
Este é um livro que se destaca pelo formato invulgar e pela forte interacção com o leitor. Em vez de ser folheado de modo tradicional, é vertical e abre-se de baixo para cima, como um bloco de notas. Essa estrutura reforça a ideia central da obra: a boca do Lobo Mau que se abre e se fecha, criando uma experiência lúdica e até assustadora para quem lê.
A história começa com o lobo a uivar de dores por causa de um dente. Desesperado, pede ajuda a várias personagens dos contos tradicionais, como os Três Porquinhos, os Sete Cabritinhos e a Avozinha. No entanto, sempre que alguém se aproxima para “dar uma olhadela”, acaba engolido com um sonoro “nhac!”. Como a dor persiste, o lobo dirige-se directamente ao leitor, pedindo ajuda a quem está fora das páginas do livro, criando um momento de humor e suspense: conseguirá o leitor escapar?
No Brasil, este título vendeu dois mil exemplares em menos de um mês. A edição portuguesa, publicada pela Alfarroba, inclui pequenas adaptações linguísticas para aproximar o texto do português corrente em Portugal.
No final do livro, Kondo revela as suas inspirações, homenageando designers japoneses como Ikko Tanaka e Kazumasa Nagai, cujas abordagens ao design gráfico influenciaram a síntese visual, o uso da cor e a criação de formas provocadoras. Também menciona o artista Katsushika Hokusai e a tradição japonesa do ukiyo-e. Para o autor, os livros devem abrir espaço ao espanto e à imaginação do leitor. Mais ainda quando uma personagem o quer devorar: “Nhac!”.
(Excerto/adaptação do texto divulgado no Público “Letra Pequena: quando o lobo tenta devorar o leitor”, a 25 de Outubro de 2025)
Obs.: Integrou, em 2025, as “shortlists” do World Illustration Awards e do Communication Arts Design Awards.
Palavras-chave: lobo mau, clássicos, tradição, medo, popular.
Imagem-chave: páginas 5 e 6 / 17 e 18
Onde está o dragão?
Escritor: Leo Timmers | Ilustrador: Leo Timmers | Tradutor: D. H. Machado
Editora: The Poets and Dragons Society | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 32
Resenhista: Sara Reis da Silva
Confiar na “escuridão” e ceder ao medo sugerido pela capa deste volume não é boa ideia. Este livro-álbum oferece uma narrativa divertida, construída a partir da interação plena entre palavra e imagem, como revelam as amplas páginas duplas, profusamente ilustradas e pontuadas por breves segmentos verbais que despertam a curiosidade do leitor. O título, de natureza interrogativa e interpelativa, constitui, desde logo, um convite à descoberta do enredo. É, aliás, o motivo da descoberta que perpassa todo o relato sob múltiplas formas, sustentado por um jogo constante entre o parecer e o ser, a ilusão e a realidade, a luz que revela e a noite que confunde. Essa tensão ganha força através de uma paleta cromática dominada por tons noturnos, que acentuam a atmosfera de mistério e ocultação. No entanto, o humor, presente tanto nas personagens como nas situações, estabelece um contraponto lúdico que torna a leitura leve, estimulando o leitor a um olhar sem pressas. As guardas do volume revestem-se de uma importante função: de modo discreto, antecipam a solução do “enigma”, culminando na revelação do dragão na alcova real. De destacar, ainda, a inclusão de um código QR de acesso ao audiolivro, recurso que amplia as possibilidades de receção da obra. Com humor, subtileza e engenho, este livro é um excelente pretexto para uma leitura partilhada e para um inesquecível passeio, na companhia de três corajosos cavaleiros, pelos caminhos da literatura-desafio especialmente vocacionada para a infância.
Palavras-chave: humor, noite, medo, enigma, descoberta.
Imagem-chave: páginas 12 e 13
Quebra-Cabeças
Escritor: Sandro William Junqueira | Ilustradora: Rachel Caiano
Editora: Caminho | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 62
Resenhista: Iêda Alcântara
Um quebra-cabeças constrói-se a partir da fragmentação. Este pequeno grande livro, em formato quadrado, assume essa premissa como tema e como método. Recusa ensinar a pensar, prefere expor o pensamento no seu estado mais bruto e toma a mente infantil como matéria descontínua, tecida por associações livres, colisões de imagens e ideias que emergem e se dissipam sem aviso.
O texto organiza-se por justaposição: frases breves, imagens mentais soltas, perguntas implícitas que provocam movimento, pensamentos que se constroem enquanto acontecem.
Visualmente, o livro habita um território de instabilidade propositada. O traço irregular, a colagem de signos e o rabisco aproximam a obra de uma estética do provisório. Não há hierarquia rígida entre os elementos nem preocupação com unidade formal clássica. Texto e imagem convivem numa tensão produtiva e, juntos, criam um jogo que exige um leitor ativo, disponível para a ambiguidade e para o inacabado. A página revela-se um espaço generoso, capaz de comportar simultaneamente excesso, ruído e silêncio. Essa liberdade visual reforça a ideia de que o pensamento não é linha reta, mas campo de experimentação permanente. A lógica fragmentária contamina até os números da paginação, que parecem vaguear e deixar-se conduzir por esse fluxo.
Ao recusar o conforto de uma narrativa linear ou de uma coerência fácil, o livro afirma o risco como valor estético. Em vez de oferecer respostas, propõe uma experiência de pensamento aberta, instável e criativamente desordenada.
Palavras-chave: fragmentação, pensamento, experimentação, quebra-cabeça, provisório.
Imagem-chave: páginas 60 e 61
Uma carta para a minha professora
Escritora: Deborah Hopkinson | Ilustradora: Nancy Carpenter | Tradutora: Lara Xavier
Editora: Fábula | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 36
Resenhista: Sara Reis da Silva
Quem não tem presente, na sua memória e no seu coração, uma professora, “aquela professora”? Quem nunca se questionou: onde estará a minha professora mais querida? Neste livro-álbum, que nos faz viajar até esse território sensível das memórias da infância, lemos (e comovemo-nos) com uma carta escrita por uma ex‑aluna a uma professora que a marcou profundamente, uma aluna que, já adulta, abraça também a profissão docente. O texto, de índole epistolar, escrito na primeira pessoa, é um exercício de evocação e de reconhecimento, dando conta do retrato de uma infância inquieta e viva, acompanhada por uma professora compreensiva e sensível, capaz de ver para além da irreverência e de valorizar a diferença. O registo verosímil, feito de uma linguagem simples e expressiva, convoca o leitor para uma escrita afetiva que testemunha uma especial gratidão por uma professora que confiou numa criança, mesmo quando ela ainda não acreditava em si própria. Esta carta, além de um agradecimento, é também, e na verdade, um autorretrato, uma tentativa de reencontro da narradora com a criança que foi e com a professora que a ajudou a crescer e a tornar-se na mulher e na docente em que se tornou. As ilustrações reiteram, de forma delicada, este jogo entre o passado e o presente. A oscilação cromática entre tons vivos e tons mais sombrios ilumina o que mais “toca” a narradora e materializa a memória como um espaço fluido, onde a nostalgia se mistura com a alegria da recordação da infância. A recriação pictórica de um “retrato de turma” presente na contracapa parece refletir a ideia de infância como um lugar ou um tempo permanente, que não se apaga e ao qual, ao longo da vida, sempre se retorna. Esta é, pois, uma narrativa profundamente humanista. Aqui, celebra-se a escola como espaço de descoberta e de construção pessoal, habitado por professoras atentas e criativas, e também como um lugar onde crianças – como a protagonista – curiosas, enérgicas e, muitas vezes, inquietas aprendem ativamente: aprendem porque se sentem acolhidas e porque têm uma professora ao seu lado e do seu lado. O elogio da leitura, do contacto com a natureza, da aprendizagem pela descoberta, ou, ainda, centrada no prazer de conhecer e na confiança no outro são aqui igualmente ficcionalizadas. E, assim, ler este livro extraordinário é, pois e muito, um reencontro com alguns rostos e algumas vozes da nossa infância (e algumas do presente). A não perder.
Palavras-chave: infância, memória, escola, humanismo, diferença.
Imagem-chave: páginas 26 e 27
A Filha do Dragão
Escritora: Liz Flanagan | Ilustrador: Joe Todd-Stanton | Tradutora: Ana Rita Mendes
Editora: Nuvem de Letras | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 400
Resenhista: Bru Junça
Liz Flanagan escreve para crianças e jovens adultos, publicando regularmente desde 2018. Neste livro, a jovem Milla descobre quatro ovos de dragão, que logo compreende ter de manter secretos. Mas e se os dragões forem precisamente aquilo de que a cidade em guerra precisa para trazer a paz? Na ilha de Arcosi, os dragões e os seus cavaleiros costumavam regular os céus, mas hoje não passam de lendas fechadas nas histórias de encantar, em belos murais ou jóias antigas. Milla assiste a um assassínio e cuida dos ovos com a ajuda dos seus amigos, correndo perigos. Amizades e lealdades, famílias esquecidas e combates pelo poder desafiam a sua luta para salvar os dragões e levam-na à descoberta do seu próprio passado escondido. Um livro bem traduzido, cativante, o primeiro de uma série que os apreciadores de dragões, de aventura e de esperança na paz não deixarão de seguir.
Palavras-chave: dragão, aventura, jornada, paz, cumplicidade.
A Quinta dos Animais
Escritor: George Orwell | Tradutora: Rita Carvalho e Guerra | Ilustrador da capa: David Pintor | Capa: Wonder Studio/Ana Teixeira
Editora: Fábula | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 168
Resenhista: Sara Reis da Silva
Esta reedição do clássico orwelliano, originalmente publicado em 1945, integra a colecção “Tesouros da Literatura” e guarda um estimulante prefácio de Maria do Rosário Pedreira, intitulado “Triunfo e Derrota”, especialmente dirigido aos leitores mais jovens. Constituindo uma obra de leitura recomendada para o 3.º ano de escolaridade, este volume (re)aproxima, assim, a conhecida narrativa do leitor contemporâneo, dando-lhe a conhecer um enredo emoldurado pela metáfora e pela alegoria, e perpassado por linhas como a opressão e a ditadura, a liberdade, a igualdade e o sonho. Uma novidade desta reedição reside na ilustração da capa assinada por David Pintor, uma representação no estilo expressivo e caricatural deste artista que, pelo traço rápido e pelas cores vivas, capta a atenção, sugerindo, desde logo, a tensão latente entre os animais e o poder instituído que atravessa a narrativa. Esta composição visual, com o destaque conferido às figuras em confronto e ao jogo de contrastes cromáticos, antecipa para o leitor a atmosfera de revolta e de ruptura que marca a narrativa. Em suma, esta é uma obra clássica, que se situa num âmbito receptivo dual ou ambivalente, porque, na verdade, pode ser lida – e bem lida – por pequenos e grandes leitores, uma narrativa com um especial significado, exemplo de uma literatura que não perde a vitalidade nem a validade.
Palavras-chave: ditadura, liberdade, sonho, revolução, igualdade.
As Mãos da Avó
Escritora: Inês Cardoso | Ilustradora: Susana Matos
Editora: Kalandraka | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 32
Resenhista: Rita Pimenta
As avós de hoje são muito diferentes daquelas que este livro representa. “De lenço na cabeça” e a “pegar em brasas sem se queimar”, esta é uma avó da aldeia. Rebanhos, pastagens, queijos, plantas, filhós, retalhos de tecidos e acumular de botões fazem parte do seu quotidiano. Este é um cenário que remete mais para as avós de quem escreveu e ilustrou o livro do que para as dos seus destinatários – as crianças de hoje. Mas é um bom exercício de memória e de partilha sobre outros tempos e ritmos, no campo e sem ecrãs.
As ilustrações, aqui e ali, de registo antiquado, em consonância com o tom do conto, oscilam entre imagens harmoniosas e desequilibradas em termos de escala relativa dos elementos. Gostamos das cores, das memórias e do desfecho.
Obs.: Coleção Livros para sonhar
Palavras-chave: família, tempo, avós, campo , memória.
Imagem-chave: páginas 4 e 5
As pessoas são esquisitas
Escritor: Vítor D. O. Santos | Ilustradora: Catarina Sobral | Tradutor: João Berhan
Editora: Orfeu Negro | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 36
Resenhista: Maria José Vitorino
O mundo está cheio de pessoas esquisitas. Nós é que nem sempre reparamos. Este livro repara. Trata-se de um álbum cheio de humor sobre o respeito mútuo e as idiossincrasias de cada um de nós, ilustrado com arrojo, embora com alguns aspetos menos conseguidos na construção do texto, nomeadamente a repetição de interrogações elaboradas. O resultado é apelativo e proporciona um desafio de leitura: estimula a imaginação e a observação das pessoas que nos rodeiam, levando-nos a ver para além do olhar.
Obs.: Premiado no Nami Concours, Coreia do Sul 2026. Integra a Coleção Orfeu Mini.
Palavras-chave: estranheza, diversidade, observação, pessoas, cidade.
Imagem-chave: páginas 16 e 17
Assim, mas sem ser assim: considerações de um misantropo
Escritor: Afonso Cruz | Ilustradora: Mariana Rio
Editora: Fábula | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 36
Resenhista: Maria José Vitorino
As palavras fazem pensar e as ideias fazem criar palavras. Olhar os outros faz-nos descobrir tanta coisa sobre a vida e sobre nós! As ilustrações revelam-se menos poéticas do que o texto, que promove “a reflexão sobre a diversidade, a desigualdade da nossa sociedade e a singularidade de cada pessoa”, como se lê na contracapa. É uma história de vizinhança e de descoberta do mundo e de si, que certamente conhecerá outras edições. De assinalar a dedicatória lúcida do escritor: “A todos os que olham para um mundo assim, percebendo que não precisa de ser assim.”
Palavras-chave: outros, reflexão, mundo, vizinhos, mudança.
Imagem-chave: página 21
Astérix na Lusitânia
Escritor: Fabcaro | Ilustrador: Didier Conrad | Tradutores: Maria José Pereira e Paula Caetano | Cor: Thierry Mébarki | Legendagem: Nuno Portugal
Editora: ASA | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 52
Resenhista: Rita Pimenta
Astérix será sempre Astérix. Apesar de, agora, os livros se materializarem por substitutos dos criadores R. Goscinny e A. Uderzo, esta banda desenhada clássica protagonizada por gauleses continua a divertir e a caricaturar com competência povos, conflitos e idiossincrasias – geográficas e outras. A Lusitânia/Portugal poderá rever-se em muitas tiras deste livro, em que se repetem expressões como “ó pá!” (talvez até em demasia) e em que se tropeça em “bacalhau” em muitas situações, para desespero de Obélix, que prefere outras iguarias. Não será o único. Hilariante a abordagem do tom e desempenho dramático do fado: “Que estranha forma de viiida tem este meu coraçããão. Vive de vida perdida, quem lhe daria o condããão? Estranha forma de viiida.” Até parece ter som. “Por Júpiter e Tutatis”, dêem-no a ler às crianças e aos jovens.
Palavras-chave: portugalidade, humor, fado, Lisboa, festa.
Imagem-chave: página 18
Benjamim e Papoila – O Segredo dos Bagus
Escritor: Matthew Cordell | Ilustrador: Matthew Cordell | Tradutora: Marta Pinho
Editora: Nuvem de Letras | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 84
Resenhista: Iêda Alcântara
“Porque era ele, porque era eu.” A frase do filósofo Michel de Montaigne sugere que a amizade não precisa de explicação lógica: a ligação existe simplesmente porque cada um é quem é.
Amigos nem sempre têm os mesmos gostos nem os mesmos interesses. Assim são o Benjamim e a Papoila. Ele adora História e museus, sobretudo o Museu da Lualândia, e encanta-se com cada peça e coleção exposta. Ela prefere as aventuras e as surpresas do ar livre. São muito diferentes e amigos.
Nesta nova aventura, Benjamim está entusiasmado com a Gala dos Fundadores do Museu da Lualândia, enquanto Papoila não demonstra o mesmo entusiasmo. Ainda assim, ele consegue convencê-la a acompanhá-lo. O que nenhum dos dois imagina é que um acontecimento inesperado vai mudar o rumo do dia. Entre descobertas e uma pitada de ciúmes, percebem que as diferenças não afastam, mas ajudam a ampliar o mundo de cada um.
O texto ágil e os diálogos com bom ritmo, acompanhados por ilustrações expressivas e cores suaves, reforçam o movimento, equilibram o humor e a ternura e criam uma atmosfera de cumplicidade.
O Segredo dos Bagus, quarto título da premiada coleção “Benjamim e Papoila”, é uma história sobre diferenças que nos lembra que a amizade é um lugar onde cada um pode ser quem é, com as suas luzes e sombras, sem precisar abdicar da própria identidade para ser aceite pelo outro. Porque a amizade vive do encontro entre aquilo que aproxima e aquilo que distingue.
Obs.: Coleção Premiada no catálogo The White Ravens, Prémio Stregga.
Palavras-chave: amizade, diferença, flexibilidade, convívio, escuta.
Imagem-chave: página 22 e 23
Cão Pulgão vai à escola!
Escritor: Colas Gutman | Ilustrador: Marc Boutavant | Tradutora: Ana Rita Mendes
Editora: Nuvem de Letras | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 70
Resenhista: Margarida Costa
Cheira a sardinhas, pensa devagar (muito devagar) e nunca anda sozinho – é sempre acompanhado pelo seu séquito fiel de pulgas. Eis o Cão Pulgão: um vadio pouco apresentável, pouco brilhante, mas com um talento especial para transformar qualquer dia normal num desastre absoluta e tristemente cómico. Desta vez, decide ir à escola. O plano é ambicioso: aprender a ler para, finalmente, decifrar as etiquetas das coisas que encontra no lixo e, claro, impressionar o seu fiel e inseparável companheiro, o Gato Chato. Será que vai sobreviver à professora, aos colegas e ao recreio sem provocar uma pequena catástrofe? E porque o esforço conta, a narrativa evolui no sentido de compensar o mais ingénuo protagonista de sempre.
Com humor simples e desarmante, esta história fala de exclusão e diferença, aceitação e amizade, através da luta de classes (caninas, neste caso), tudo através de um anti-herói improvável, adoravelmente crédulo e irresistivelmente desastrado. Trata-se de uma forma diferente de abordar o tema do bullying. Se excluirmos a exagerada inocência do seu protagonista, levanta inúmeras questões de índole social, que a divertida ilustração apoia, desdramatizando a questão da violência implícita. Este é um excelente livro de transição para leitores que já se aventuram a ler sozinhos.
Palavras-chave: bullying, amizade, conflito de classes, escola, aprendizagem.
Imagem-chave: página 64
A Carta com o Selo Dourado
Escritora: Onjali Q. Raúf | Ilustradora: Pippa Curnick | Tradutora: Helena Cruz Ventura
Editora: Book Smile | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 336
Resenhista: Rui Marques Veloso
Este é um romance juvenil com uma carga emocional forte que prende o leitor até à última página. Num quadro familiar difícil, a protagonista Audrey, uma criança que vive com a mãe inválida e dois irmãos bem mais novos, tornou-se uma cuidadora informal, já que, naquela casa, não há qualquer outro adulto. Decidida a descobrir o paradeiro do pai (a viver em Londres, tendo constituído uma nova família), tenta viajar para lá, dentro de uma encomenda devidamente selada. Gorada a tentativa, torna-se público o drama daquela família, o que conduz a soluções solidárias por parte da sociedade. Os valores da coragem, dignidade e honestidade estão plasmados na diegese desta obra. O discurso narrativo é excelente e a gestão da expectativa francamente superior.
Palavras-chave: coragem, maturidade, amor, família, sensibilidade.
Cartas que o Pai Natal Não Esperava
Escritor: David Griswold | Ilustrador: Luis San Vicente | Tradutora: Jorge Lima
Editora: Nuvem de Letras | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 52
Resenhista: Bru Junça
Este volume é uma colectânea de cartas escritas ao Pai Natal por várias crianças. Cada uma faz a sua lista de desejos e de desabafos, em jeito de crítica. Nesta tarefa hercúlea, os textos são pautados por muito humor e denotam uma relação de proximidade afectiva com esta figura que habita o imaginário de tantas crianças na infância. Cada carta representa um estilo próprio e individual. Individualmente ou em sequência, as várias peças deste correio contemporâneo podem ser uma leitura agradável para outras faixas etárias e também para momentos de leitura partilhada, em par ou em família, que facilitem a descodificação de algumas referências do texto. Embora com algum ruído, desafiando a interligação linear entre as páginas, a ilustração seduzirá os mais novos e poderá estimular leituras e releituras.
Palavras-chave: Natal, escrita, cartas, Pai Natal, humor.
Imagem-chave: páginas 16 e 17
Como Chegar à Lua
Escritor: Nicolás Schuff | Ilustradora: Ana Sender | Tradutora: Catarina Gândara
Editora: Nuvem de Letras | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 36
Resenhista: Rita Pimenta
A capa conquista de imediato o leitor, sobretudo se facilmente se enfeitiça com a lua cheia e se comove com a relação das crianças com os mais velhos. Se é sabido que não se deve julgar um livro pela capa, aqui não se sentirá ludibriado. Lá dentro ainda é melhor.
Vicente vai de comboio ter com o avô, que vive na floresta, rodeado de árvores muito altas que parecem gigantes a conversar quando há vento. É Verão. “Vicente, gostavas de ir à Lua?”, pergunta-lhe o homem de grandes bigodes e chapéu verde. “Sim, gostava muito”, responde o menino. E põem-se a caminho até à beira do penhasco. Lá em baixo, na lagoa, o reflexo da Lua chama por eles.
Esta é uma história simples, terna e cheia de silêncios, alguns preenchidos pela força da ilustração, que nos faz mergulhar numa atmosfera nocturna e misteriosa, mas não assustadora. Poético e envolvente, leva-nos a acreditar no poder das histórias e do tempo partilhado sem pressa com quem gosta de nós.
Obs.: Livro vencedor Best Book for Kids 2022 da New York Public Library
Palavras-chave: natureza, afecto, avós, imaginação, lua.
Imagem-chave: páginas 16 e 17
Contos de Arrepiar. 10 clássicos imperdíveis para jovens leitores que adoram suspense.
Escritora: Altea Villa | Ilustrador: Víctor Medina | Tradutor: Igor Lobão
Editora: Nuvem de Letras | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 100
Resenhista: Dora Batalim
São 10 os contos clássicos de língua inglesa aqui selecionados e adaptados para crianças em versão curta: Bram Stoker, Mary Shelley, Edgar Allan Poe, Robert Louis Stevenson, Oscar Wilde, Arthur Conan Doyle, Nathaniel Hawthorne, Washington Irving, William Hope Hodgson, os irmãos Grimm. Trata-se de uma escolha apurada num volume bem organizado, bem ilustrado e de leitura agradável. Adolescentes e jovens apreciarão esta descoberta de histórias conhecidas e que integram o universo global de referências literárias, incluindo os contextos culturais e artísticos mais diversos, da música ao teatro e ao cinema.
Palavras-chave: clássicos, terror, mistério, contos, emoções.
Imagem-chave: páginas 68 e 69
Há um Fantasma na Escola
Escritora: Emmanuelle Cosso | Ilustrador: Nathanaël Ferdinand | Tradutora: Telma Pires
Editora: Nuvem de Letras | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 244
Resenhista: Iêda Alcântara
É comum encontrarmos numa sala de aula um rapaz desengonçado e distraído, que parece estar sempre noutro lugar. Não tem amigos e refugia-se no seu canto. O que não é nada comum é que um rapaz assim faça amizade com um fantasma. Não acreditas em fantasmas? Não estás sozinho.
Esta é a história de uma amizade improvável e pouco convencional entre Anatol e Filomena, uma rapariga que ninguém mais vê e que vive presa à escola desde 1870. Entre o real e o imaginário, o passado e o presente, os dois tentam evitar uma grande catástrofe na escola. A eles junta-se Julieta, uma menina capaz de perceber os encantos de Anatol e de ver o que passa despercebido aos outros.
E é precisamente a Julieta quem conta esta história. Com humor e um texto perspicaz, a narradora envolve o leitor e torna-o cúmplice dos acontecimentos. As ilustrações acompanham e prolongam a narrativa, misturando caricatura e sensibilidade.
Uma história de fantasmas e de amizades inesperadas, que se transforma numa reflexão sobre a escuta, a presença e tudo o que permanece à margem ou, ainda, sobre a delicada relação entre o que se vê e o que não se vê.
Palavras-chave: memória, invisibilidade, amizade, escuta, presença.
Imagem-chave: páginas 86 e 87
Julieta Pirueta e o Segredo do Pássaro Azul
Escritor: Brian Freschi | Ilustradora: Elena Triolo | Tradutor: Igor Lobão
Editora: Nuvem de Letras | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 184
Resenhista: Sara Reis da Silva
Julieta Pirueta regressa neste novo volume com a sua energia, o seu humor, os seus medos e dilemas habituais. Terminado o primeiro ciclo, feitas as despedidas da professora e dos amigos, as férias de Verão aproximam-se. Julieta não cabe em si de contente com os planos de uns belos dias no campo, em casa dos avós. Saber que poderá ir com os seus melhores amigos, além da sua mãe e do seu irmão, foi a melhor notícia que poderia ter recebido. Multiplicam-se, assim, os projectos, as peripécias e os episódios divertidos. Há um, porém, que “toca” verdadeiramente a protagonista e o seu irmão: a descoberta do diário da sua mãe, Teté, e a busca de respostas para alguns dos registos intimistas que aí encontram, muitos deles reveladores de que, afinal, a mãe não foi assim tão diferente de Julieta e do seu irmão. Diversão, mistério e aventura pautam esta narrativa gráfica especialmente bem conseguida, assente num discurso verbo-icónico equilibrado, expressivo e atento aos detalhes, uns cómicos, outros muito sensíveis, mas sempre “testando” a atenção do leitor que, com facilidade, se torna “cúmplice” da bailarina Julieta. Este é um volume cuja leitura cativa, divertindo e emocionando. Uma obra muito recomendada para quem dá os primeiros passos no universo das leituras que convidam a estar sem pressas, na companhia de um (belo) livro.
Palavras-chave: pré-adolescência, dança, mistério, família, amizade.
Imagem-chave: páginas 70 e 71
Lembras-te?
Escritor: Sydney Smith | Ilustrador: Sydney Smith | Tradutora: Susana Cardoso Ferreira | Adaptação da capa: Wonder Studio/Carolina Leonardo
Editora: Fábula | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 44
Resenhista: Sara Reis da Silva
Este livro-álbum é uma celebração, ou melhor, várias celebrações. Aqui, celebra-se a cumplicidade e a união, a memória e a alegria, a mudança e a esperança no futuro. Aqui, o diálogo íntimo e terno entre uma mãe e um filho envolve o leitor (de qualquer idade), que fica “preso por vontade” a ler um amor sereno. O discurso verbal prima pelo coloquialismo, pela simplicidade e por um acentuado sensorialismo, visível em imagens como a doçura das groselhas, a escuridão da tempestade ou o cheiro do velho candeeiro a petróleo do avô. A composição visual, elegante, com apontamentos simbólicos e um marcado jogo de claro-escuro, reparte-se entre páginas duplas de forte impacto (como as que recriam mãe e filho, frente a frente) e sequências compostas por pequenos trechos quadrangulares, quase “frames” cinematográficos, que ilustram momentos do passado. A reiteração do verbo “lembrar”, motivo já destacado no título do volume, sublinha a importância das vivências de outro tempo e da própria memória na (re)construção do eu e do nós, num presente enquadrado pela tranquilidade.
Palavras-chave: memória, família, infância, maternidade, mudança.
Imagem-chave: páginas 18 e 19
O Desfile Animal
Escritor: Marcos Farina | Ilustrador: Marcos Farina | Tradutora: Margarida Ferreira
Editora: Kalandraka | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 20
Resenhista: Dora Batalim
Através de um lindo banquete visual de imagens de cores quentes, propõe-se aos mais novos um desfile de animais domésticos e selvagens, acompanhados por crianças. Embora diferentes entre si, partilham ações, emoções e rotinas quotidianas facilmente reconhecíveis pelo leitor.
A estrutura do livro assenta numa sucessão de pares: enquanto um animal faz algo, outro faz o contrário – rápido/lento, solitário/sociável, acordado/adormecido. Esta dinâmica de contrastes, porém, ultrapassa o mero livro de conceitos. O autor transforma os opostos numa proposta artística coerente, em que as frases de cada página dialogam com a imagem com rigor e sensibilidade. Revela-se, assim, que a diversidade não impede que todos – animais ou humanos – partilhem experiências comuns, como brincar, sonhar, comer ou simplesmente observar o mundo.
As ilustrações, ancoradas numa estética retro cuidadosamente composta, com ligeiras sobreposições transparentes e sem volumes, são de grande força expressiva. A cor, a escala e a composição criam personagens de design amável em fundo limpo, cujas ações se tornam imediatamente legíveis para crianças pequenas. Essa legibilidade é reforçada pela decisão gráfica de destacar, em tipografia colorida e ampliada, os nomes dos animais e das ações, uma estratégia que cria uma ponte direta entre palavra e imagem, apoiando o desenvolvimento do vocabulário e da consciência linguística inicial. Notamos que esta intenção resultaria ainda melhor se tivesse havido uso das correspondências de cor palavra/imagem. O formato quadrado cartonado é particularmente feliz: resistente ao uso intensivo e adequado às mãos pequenas. Também permite que as páginas funcionem como quadros individuais e, apesar de não ser cumulativo, apresenta um fecho redondo, numa dupla final que reúne todos os animais, estabilizando a leitura e transformando-a numa pequena viagem coerente.
Graças à sua clareza narrativa e à sua delicadeza conceptual, o livro serve plenamente o seu público-alvo: bebés, crianças em idade de creche e pré-escolar, bem como os seus adultos mediadores. Há humor subtil e ternura neste convite à celebração das personagens do mundo natural de que a criança é parte.
Palavras-chave: animais, opostos, crianças, ações, diferenças.
Imagem-chave: páginas 12 e 13
O Feiticeiro de Oz
Escritor: L. Frank Baum | Ilustração da Capa: David Pintor | Tradutora: Carla Maia de Almeida
Editora: Fábula | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 224
Resenhista: Dora Batalim
Esta edição de O Feiticeiro de Oz é um volume da coleção juvenil Tesouros da Literatura, concebida para aproximar os clássicos universais dos jovens leitores portugueses de forma cuidada e acessível. O destaque desta obra reside no trabalho de Carla Maia de Almeida, cuja tradução consegue preservar o tom de encantamento e a simplicidade sofisticada do texto original de L. Frank Baum. Além disso, a tradutora assina uma valiosa introdução que contextualiza a obra no panorama da literatura infantil mundial, oferecendo pistas de leitura que enriquecem a experiência tanto para crianças como para adultos.
Este volume é particularmente convidativo do ponto de vista material e gráfico para quem se inicia na leitura de livros sem ilustrações. O tipo de letra escolhido é claro e de dimensão adequada para evitar a fadiga visual. O formato de edição é leve, ergonómico e de ampla abertura, ideal para mãos mais juvenis e/ou para quem gosta de ler em movimento.
Escrito em 1900, este romance infantil foi adaptado ao cinema em 1939, ganhando aí também o estatuto de clássico, bem como noutras linguagens artísticas, nas quais, por várias vezes, ganhou nova forma, como no teatro. O segredo reside na visualidade do relato, na potência alegórica do enredo e na icónica galeria de personagens, que estende a sua influência até aos nossos dias.
Esta edição comemora os 125 anos da primeira publicação da obra, reafirmando, pois, a intemporalidade de Dorothy e dos seus amigos. Ao contrário de muitas versões adaptadas ou resumidas, esta é uma versão integral, garantindo que o leitor tem acesso direto a todos os pormenores da jornada pela estrada de tijolos amarelos.
Palavras-chave: clássico, autodescoberta, amizade, lar, resiliência.
O Tempo Corre como um Rio
Escritora: Emma Carlisle | Ilustradora: Emma Carlisle | Tradutora: Susana Cardoso Ferreira
Editora: Fábula | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 44
Resenhista: Paula Cusati
Duas crianças despedem-se das mães e vão juntas brincar à beira do rio que passa ali perto. É um rio que conhecem bem, porque costumam percorrer as suas margens e demorar-se a contemplá-lo e aos seres que o habitam ao longo das estações. O livro é construído precisamente através da analogia entre o tempo e o rio, pois ambos avançam inexoravelmente. O tempo, tal como a água de um rio, corre, pinga, escoa, ondeia, flui, vagueia, serpenteia e desagua. Tudo muda, tudo passa.
O texto assume a forma de quadras com rima alternada, por vezes, com versos dispersos por mais de uma dupla página, e aborda os temas do tempo e da mudança de força sensível e abrangente, referindo não só as estações e a divisão em dias, horas e segundos, mas também aludindo às nossas diferentes percepções do tempo em momentos de felicidade ou de preocupação, ou à duração relativa da vida de cada ser. As ilustrações retratam paisagens e personagens através de uma paleta de cores naturais, em tons terra e verdes secos, anunciados, em pinceladas de aguarelas nas guardas, ou, no miolo, em pastéis a óleo e lápis de cor. É interessante o uso da tonalidade sépia na referência ao passado e a triplicação quase em transparência do futuro crescimento das duas crianças. Com uma edição cuidada, em capa dura e com lombada forrada a tecido verde escuro, este é o segundo livro-álbum da autora inglesa publicado em Portugal. Apresenta uma estrutura semelhante ao primeiro (O que vês quando olhas para uma árvore), terminando com elementos de não ficção que ocupam as duas últimas duplas páginas: na primeira, intitulada “A família do rio”, apresenta-se o ecossistema fluvial; na segunda, com o título “Abraçar a mudança”, sugerem-se atividades, como criar e manter um diário sazonal ou lançar sementes num vaso e cuidar das plantas que nascerem. Na última página, a autora inclui uma sua fotografia e uma nota pessoal que explica o processo de criação do livro e a sua intenção.Um livro que é um convite a compreender e apreciar as mudanças (as nossas e as do mundo à nossa volta).
Palavras-chave: tempo, rio, mudança , estações, atenção.
Imagem-chave: páginas 22 e 23
Os Larápios 1 - O Diamante de Ouro
Escritor: Anders Sparring | Ilustrador: Per Gustavsson | Tradutor: João Reis
Editora: Nuvem de Letras | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 84
Resenhista: Rui Marques Veloso
Este constitui o primeiro volume de uma série de romances juvenis que surpreendem pela criatividade e por um sentido de humor diferente do habitual. Os valores estruturantes nunca são postos em causa, ainda que, aparentemente, a delinquência de uma família seja o tema dos vários volumes desta colecção. A tradução feita directamente do sueco é exemplar e surpreendente. A ilustração é dinâmica e o grafismo está muito bem trabalhado. A família Larápio vai roubar um valioso diamante de ouro, presente numa exposição. O filho mais novo, o Tomé, uma criança que nunca mente, vai ter de mentir para o insucesso da operação.
Palavras-chave: humor, família, cumplicidade, imaginação, pragmatismo.
Imagem-chave: página 32
Os Whisperwicks: A Maldição dos Arrebatados
Escritor: Jordan Lees | Ilustradora: Vivienne To | Tradutora: Dulce Afonso
Editora: Nuvem de Letras | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 448
Resenhista: Paula Cusati
No segundo volume da coleção Os Whisperwicks, Benjamiah, ao encontrar um estranho fragmento de máscara, regressa a Wreathenwold, durante o Festival do Solstício de Verão. Este é, agora, um mundo de trevas, dominado por um tirano. Benjamiah fica a saber que “a magia forjada neste período é a mais forte e pura de todas as magias, tanto a boa como a suja” e que talvez essa seja a causa do desaparecimento de cada vez mais crianças. O rapaz reencontra Elizabella e, com a ajuda desta e de outros dois novos amigos, Silas e Mea, terá de resolver cinco enigmas e superar desafios (quase) impossíveis.
Jordan Lees cria todo um universo labiríntico, através de uma trama narrativa intensa em que se entrelaçam fantasia, aventura, mitologia e suspense, com descrições vívidas e linguagem rica e evocativa. Os 21 capítulos, sempre introduzidos por um excerto de O Livro das Histórias Quase Inacreditáveis, de Mildred Fogge (volume fulcral para o desenlace de cada uma das aventuras vividas pelos protagonistas), com regularidade, por vezes, pacificante, e, por outras, imprevista, avançam a bom ritmo até ao clímax final. As ilustrações de Vivienne To, sem cor, permitem ao leitor o confronto com as paisagens, as personagens e os detalhes convocados pelo texto.
O tropo do “mundo paralelo” presente na coleção encontra raízes em clássicos da literatura para a infância e juventude, amados por muitas gerações, como Alice no País das Maravilhas e Alice do Outro Lado do Espelho, de Lewis Carroll, As Crónicas de Nárnia, de C. S. Lewis, ou, mais recentemente, a saga de Harry Potter, de J.K. Rowling. Os jovens leitores ficarão certamente a aguardar com fervor a publicação em Portugal do último volume da trilogia.
Palavras-chave: fantasia, máscara, magia, mistério, regresso.
Imagem-chave: páginas 66 e 67
Pai, e se Ficares Sem Palavras?
Escritora: Felicita Sala | Ilustradora: Felicita Sala | Tradutora: Lara Xavier
Editora: Fábula | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 44
Resenhista: Margarida Costa
Quem, na sua infância, não se recorda das conversas intermináveis dos pais durante as compras ou ao telefone? Agora imagine a infância atual, com os pais tantas vezes divididos entre o mundo dos adultos e o brilho do telemóvel. Esta é uma história onde o amor de um pai se escreve em palavras, silêncios e promessas. Conhecemos a protagonista, logo nas guardas iniciais do livro, uma criança ativa e curiosa, que observa o quotidiano do pai, entre conversas infindáveis e o martelar do écran do telemóvel. Ela sente-se só e teme que, um dia, faltem ao pai o tempo e as palavras que a fazem sentir-se amada.
Numa entrevista, a autora refere que esta ideia lhe surgiu a partir de uma pergunta inocente da sua filha, que a deixou a pensar, revelando como as perguntas infantis, simples à superfície, carregam emoções e inquietações profundas, mostrando a vulnerabilidade das crianças num mundo vasto e a necessidade de proteção, atenção e amor. Assim nasceu este livro, onde o pai responde com imaginação e doçura, na tentativa de afastar esse medo. E ela interroga-o incessantemente, como quem testa o fio invisível que os liga. Entre humor, fantasia e ternura, ele irá buscar as palavras certas a cenários verdadeiramente oníricos, potenciados por uma ilustração vibrante e calorosa, que alterna páginas duplas com páginas simples e vinhetas a lembrar banda desenhada. Nada é longe demais quando se trata do vínculo profundo entre pai e filha. A seriedade, sem qualquer condescendência, com que o livro interage com as preocupações e esperanças das crianças é, sem dúvida, um dos seus pontos fortes.
Palavras-chave: pai, desconexão, comunicação, afeto, imaginação.
Imagem-chave: páginas 6 e 7
Passos de Gigante
Escritora: Anais Lambert | Ilustradora: Anais Lambert | Tradutora: Andreia Salgueiro
Editora: Alfarroba | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 42
Resenhista: Dora Batalim
Este livro-álbum convida o leitor a acompanhar a criança protagonista na saída para o ar livre. Caminhamos num território simultaneamente físico e imaginativo, onde cada passo desencadeia uma ampliação do mundo natural, através da observação. A narrativa constrói-se a partir de uma experiência de descoberta progressiva; a cada virar de página corresponde uma revelação particularmente feliz do espaço do ar livre como lugar de contemplação, relação e imaginação, fazendo dialogar o perto e o longe, o pequeno e o grande, o silêncio e o ruído. A estrutura em dupla página e a permanente continuidade visual gráfica reforçam a ideia de caminho, de progressão e de transformação: o leitor é levado a atravessar florestas, a seguir um urso, a observar criaturas selvagens no céu, num crescendo imaginativo que culmina com o aparecimento de um “gigante ainda maior”, figura que reconduz a criança a casa e fecha o ciclo da aventura.
As ilustrações luminosas recorrem a colagens de recortes de papel que representam plantas, insetos e animais, criando uma atmosfera simultaneamente delicada e dinâmica, corroborando aquilo que a sequência narrativa pretende imprimir.
Importa assinalar que, na versão em língua portuguesa, o texto fica aquém do valor poético do original em língua inglesa, registando-se diferenças menos felizes que limitam a força imagética e a cadência narrativa simples do texto de partida. Trata-se de um aspeto que poderá e deverá ser revisto em futuras edições, de modo a restituir a potência estética do livro. Ainda assim, Passos de Gigante afirma-se como uma obra de qualidade, pela sensibilidade visual e conceptual que a caracteriza.
Palavras-chave: natureza, descoberta, contemplação, caminho, ar livre.
Imagem-chave: páginas 4 e 5
Quando os cães deixaram de falar e outras fábulas universais
Escritora: Conceição Lima | Ilustradora: Danuta Wojciechowska
Editora: Caminho | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 76
Resenhista: Maria José Vitorino
O livro reúne histórias da tradição oral de São Tomé e Príncipe, a começar pela maravilhosa Festa no Céu, e versões de “fábulas universais”, como a da Cigarra e da Formiga. A autora revisita memórias de infância em São Tomé e Príncipe e as vozes que lhe contavam histórias. Explica-nos, na introdução, o processo utilizado: “registo recriado das fábulas escolhidas, respeitando ao máximo o seu cerne, as personagens principais e a moral.” Num volume de pequeno formato tão do agrado dos mais novos, belamente ilustrado por Danuta Wojciechowska, a tartaruga e outros animais sucedem-se em páginas de leitura agradável, que também pode ser feita em voz alta. Inclui um glossário para melhor compreensão de vocábulos como fitxin (intriga) ou obô (mato, floresta), contribuindo para ampliar a “coleção” de palavras de quem o ler.
Palavras-chave: contos tradicionais, fábulas, literatura oral, São Tomé e Príncipe, lusofonia.
Imagem-chave: páginas 26 e 27
Raio de Luz
Escritora: Kelly Canby | Ilustradora: Kelly Canby | Tradutora: Lara Xavier
Editora: Nuvem de Letras | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 36
Resenhista: Maria José Vitorino
Esta é a tradução feliz de uma fábula inspiradora, em defesa da tolerância. Precisamos de alargar os horizontes, promover a empatia, o conhecimento mútuo, a aceitação. Esse é um dos segredos da paz – e de paz e poder também trata este livro. Neste, conhecemos uma pequena cidade, Lusco-fusco, que pode ser qualquer cidade, e uma história de muros que se transformam em pontes e janelas. Também aí lemos um presidente inseguro e tirano, um muro opressivo e uma menina corajosa. Um dia, começam a desaparecer tijolos do muro que cerca toda a cidade. Todos ficam furiosos, até que descobrem que, em vez do medo, é mais importante e útil a abertura a novas experiências.
A história desenvolve-se em frases curtas, que suportam bem a leitura em voz alta. As ilustrações aplicam uma escolha da autora que não agradará a todos os leitores, mas serve o foco da narrativa, no contraste entre a cidade cercada, cinzenta, e a cidade aberta por ação de uma criança. A paisagem que as ilustrações representam são cinzentas, mas com apontamentos de cores vibrantes que fazem adivinhar que nem tudo é aquilo que parece. Onde antes havia muros, havia agora janelas e, assim, podiam conviver com o diferente, com a rica variedade do mundo, e ultrapassar a fúria e o medo que, mais do que os proteger, os limitava.
Um livro simples, que pode ser partilhado em sala de aula, mas também em leitura em família. Os mais velhos vão apreciar a alegoria e a vitória da menina vai deliciar os mais pequenos.
Palavras-chave: inclusão, poder, diversidade, segurança, muros.
Imagem-chave: páginas 24 e 25
Saiam, Bichos Chatos!
Escritora: Emily Gravett | Ilustradora: Emily Gravett | Tradutora: Liliana Simões
Editora: Livros Horizonte | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 36
Resenhista: Bru Junça
A história começa com o Texugo que tenta, em vão, ler o seu livro de receitas. Uma tarefa, aparentemente simples, torna-se num imenso desafio quando é importunado por uma mosca e um conjunto de outros bicharocos que não o deixam ler. A partir daqui, desenrolam-se peripécias cheias de engenho, para pôr fim à azáfama causada por tão incómoda bicheza. O livro é pautado por um humor inteligente, traço já (re)conhecido de Emily Gravett. O texto segue em rima, de forma leve e divertida, mas sagaz, convidando o leitor a entrar num jogo de ritmo e sentido. Sem nunca se revelar didática ou moralista, a narrativa pisca o olho à ciência e celebra a ecologia num abraço ao equilíbrio da natureza. Afinal, para que todos os ciclos e as estações se cumpram, todos são necessários. Até os mais incomodativos.
A ilustração faz um belíssimo contrabalanço com o texto. As guardas do livro abrem o apetite com uma série de receitas e colocam-nos, de imediato, na acção do Texugo. A nota introdutória é deliciosa. O traço, muito realista e rico em detalhes, está repleto de humor e subtis notas de crítica social e chamada de atenção. Apesar de contemporâneo, revela um certo lado clássico que nos transporta para um lugar de inocência, um espaço que não quer ser corrompido e funciona assim como uma bela analogia entre a natureza e a mão humana. A par de tudo isto, temos a mancha gráfica que brinca pontualmente com o movimento e o rasto dos bichos. É um livro que levará qualquer criança apaixonada pela ciência a deliciar-se com os pormenores, convidando-nos a todos a olhar para os mais pequenos com a consciência de que eles movimentam o mundo.
Palavras-chave: insetos, ecologia, floresta, natureza, interajuda.
Imagem-chave: páginas 6 e 7
Segredo de Família - Voando Sobre o Ninho da Família Pardal
Escritor: Álvaro Magalhães | Ilustrador: David Pintor
Editora: Fábula | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 224
Resenhista: Margarida Costa
À semelhança de outros livros da coleção, o autor apresenta aos seus leitores uma saga familiar, desta feita a da família Pardal. Mais uma vez, escolhe como narrador um personagem não humano. A história é contada por um pardal muito especial, que caiu do ninho ainda bebé e acabou adotado pelo membro mais novo da família. É ele quem nos apresenta Hugo e Maria Inês, dois irmãos curiosos que começam a desconfiar de um grande segredo guardado pelo pai, pelo tio e pela tia. A avó ajuda-os na investigação que leva até um cofre misterioso, fechado com um código. O problema é que cada um dos irmãos só conhece uma parte dos números e, por isso, vão ter de colaborar. Ou deviam. Mas, quando sabe que estão milhões em jogo, a família é tomada pela ganância e tudo se transforma numa confusão cheia de enganos, que acaba num desfecho inesperado.
O texto, que decorre em bom ritmo, apoiado pela escolha de uma fonte de tamanho generoso, favorece a leitura pelas crianças que se lançam autonomamente num livro que exige maior fôlego. Entre mentiras e segredos, esta é uma abordagem diferente do habitual à temática da família. As ilustrações, em escala cinza, acrescentam humor a todas as situações e revelam uma história divertida, surpreendente e cheia de reviravoltas.
Palavras-chave: família, mistério, ganância, engano, voar.
Imagem-chave: páginas 160 e 161
Tu és um Monstro?
Escritor: Guilherme Karsten | Ilustrador: Guilherme Karsten | Tradutor: Frederico Corado
Editora: The Poets and the Dragons Society | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 40
Resenhista: Margarida Costa
Este livro constrói uma narrativa inteligente e sensível a partir da desconstrução do arquétipo do “monstro assustador”, logo a partir da imagem criada pelo autor. Embora o protagonista se apresente como furioso, corajoso e mau, a obra subverte essa autoimagem ao conduzir o leitor por um percurso de descoberta afetiva, no qual a identidade da personagem evolui de ameaçadora para progressivamente mais terna.
O seu principal mérito reside na sua estrutura interativa, que transforma o leitor num agente ativo da narrativa. A participação direta das crianças – constantemente interpeladas através do diálogo com a personagem – não só estimula o envolvimento, como promove o desenvolvimento emocional, favorecendo a identificação, a empatia e a reflexão sobre sentimentos como a raiva, o medo e o afeto. O “monstro” deixa de ser símbolo do perigo para se tornar representação de conflitos internos próprios da infância, tratados com leveza, humor e sensibilidade, reforçando uma mensagem: a aparência não define a identidade.
É um livro que funciona eficazmente tanto em contextos familiares como em ambientes escolares. Estimula a linguagem oral, a escuta ativa, a interação social e a leitura partilhada, criando simultaneamente um espaço lúdico de aprendizagem emocional. O reconhecimento por parte da BookTrust (UK), através da escolha popular de bibliotecários e famílias, legitima não apenas a qualidade literária do livro, mas também o seu impacto social e educativo.
Obs.: Vencedor do “BookTrust Storytime Award 2024” (Reino Unido). O QR code na contracapa dá acesso ao audiolivro.
Palavras-chave: humor, interativo, medo, monstros, imaginação.
Imagem-chave: páginas 8 e 9
Um ano atarefado
Escritor: Leo Lionni | Ilustrador: Leo Lionni | Tradutora: Carla Maia de Almeida
Editora: Kalandraka | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 28
Resenhista: Sara Reis da Silva
Do autor do clássico Pequeno Azul e Pequeno Amarelo, a que se seguiram mais de quarenta títulos, este livro-álbum volta a trazer para a cena figuras já familiares de outros volumes. Desta vez, são dois ratos gémeos, Artur e Alice, que, sempre unidos, vivem um ano inteiro de dedicação e atenção à sua amiga Flora, uma árvore. Como se se tratasse de pessoas que cuidam dos outros, percebem o seu estado de espírito, atendem às suas necessidades e respeitam o seu descanso, encontram‑se com ela, mês após mês, de janeiro a dezembro, e compartilham, assim, as quatro estações do ano. Nesta espécie de “calendário narrativo”, cada encontro corresponde a um mês e permite observar as transformações sazonais da árvore e da paisagem. Chuva, vento, neve, sol e calor – este último acabando mesmo por se transformar num perigoso incêndio – emolduram os doze meses de convívio, amizade e cuidado entre estes amigos. Os seus dias são feitos de diálogos simples e vivos, que revelam uma sensibilidade rara. A composição visual, no estilo a que o autor habituou leitores de várias gerações, assenta em formas muito simples, quase minimalistas, e na técnica do recorte e colagem. Tudo, neste livro – desde os tópicos ficcionalizados (note-se que o autor sempre privilegiou temas como a identidade, a diferença, a solidariedade, a coragem e a importância da imaginação, a que se juntam, neste livro-álbum, entre outros, a amizade, a convivência interespécies e a proteção do ambiente/ecologia) até às ilustrações e à própria configuração gráfica – atesta a arte delicada de Leo Lionni. Trata-se, assim, de mais um título que agradará, com toda a certeza, a pequenos e grandes leitores, um livro-álbum feito de sensibilidade e simplicidade, na mesma linha poética e ética das demais obras deste artista.
Palavras-chave: amizade, solidariedade, diferença, ecologia, tempo.
Imagem-chave: páginas 20 e 21
Um Melhor, Melhor Amigo
Escritor: Olivier Tallec | Ilustrador: Olivier Tallec | Tradutora: Francisca Cortesão
Editora: Nuvem de Letras | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 36
Resenhista: Iêda Alcântara
Toda a gente sonha encontrar um melhor amigo, alguém com quem dividir os melhores momentos e que até torna bons os momentos maus. Mas o que acontece quando surgem mais candidatos a esse lugar especial? Alto lá. Melhor amigo só pode haver um. Então, de todos, quem será o meu melhor, melhor amigo?
É nesse dilema delicioso que o esquilo se move ao longo desta história cheia de humor e sensibilidade. A narrativa acompanha a sua tentativa de definir, com rigor, quem merece ocupar esse lugar único, uma procura que, pouco a pouco, revela muito sobre a amizade e a afetividade.
O texto é conciso, inteligente, divertido e seguro. Nada sobra. E o humor nasce justamente da simplicidade das situações. Cada frase sustenta o ritmo da história e deixa espaço para que o leitor participe no jogo. O livro não encerra a questão nem oferece uma resposta definitiva. A pergunta permanece.
As ilustrações são delicadas e encontram-se muito bem integradas no texto. O humor nasce muitas vezes de gestos mínimos, da inclinação do corpo, do olhar desconfiado ou da postura dos animais. Nota-se um cuidado na variação dos enquadramentos. Em alguns momentos, a paisagem abre-se e deixa ver a floresta e o caminho; noutros, a cena aproxima-se das personagens. Esse jogo entre distância e proximidade cria ritmo e mantém a leitura visual viva. A floresta deixa de ser apenas cenário e passa a construir a atmosfera da história, acompanhando os gestos, as expressões e o estado de espírito do esquilo.
As crianças mais pequenas reconhecer‑se‑ão facilmente nesta procura por um melhor amigo. As que já não são tão pequenas, se se deixarem levar pela leveza do texto e das ilustrações, irão rir‑se e emocionar‑se com uma história que observa a amizade com simplicidade, humor e grande sensibilidade.
E, se gostar deste livro, vale a pena conhecer também Já não quero ser esquilo, do mesmo autor, uma história que aborda, com igual delicadeza e mestria, a singularidade de cada um.
Palavras-chave: amizade, procura, companheirismo, surpresa, humor.
Imagem-chave: páginas 10 e 11
Um Vestido com Bolsos
Escritora: Lily Murray | Ilustradora: Jenny Lovlie | Tradutora: Susana Cardoso Ferreira
Editora: Fábula | Ano de publicação: 2025 | N.º de páginas: 28
Resenhista: Paula Cusati
No seu dia de anos, Luísa acompanha a tia Augusta, uma senhora muito elegante, que lhe quer oferecer um vestido novo. Pouco entusiasmada, a menina entra na Loja das Fatiotas Fabulosas, onde o proprietário e as suas assistentes lhe propõem dezenas de vestidos diferentes: “vestidos discretos, vestidos volumosos, vestidos vermelhos e espalhafatosos!”, “vestidos leves, delicados e esvoaçantes como nuvens flutuantes!”. A tia está encantada, mas, para a Luísa, curiosa e exploradora, nenhum parece o certo, pois o que ela deseja é um vestido com bolsos, para guardar todos os tesouros incríveis que encontrar.
Trata‑se de um livro‑álbum, profusa e minuciosamente ilustrado (desde as guardas, aos inúmeros vestidos e aos imensos tesouros), cujo texto, com ritmo, rima e ludicidade, é perfeito para leitura em voz alta. A tradução cuidada, como é habitual de Susana Cardoso Ferreira, mantém vibrantes o vocabulário rico e as divertidas enumerações.
Uma obra que agradará certamente a toda a família e que convida a reler e a demorar-se nos detalhes de cada dupla página.
Palavras-chave: infância, vestido, roupa, curiosidade, descoberta.
Imagem-chave: páginas 8 e 9
Selo Brasil 2025
O DINOSSAURO DA CASA DO LADO
O ELEFANTE E O MAR
O GATO, O COELHO E OUTROS CONTOS TRADICIONAIS
PING PING ATCHIM
LOBO MAU COM DOR DE DENTES
ONDE ESTÁ O DRAGÃO?
QUEBRA-CABEÇAS
UMA CARTA PARA A MINHA PROFESSORA
A FILHA DO DRAGÃO
A QUINTA DOS ANIMAIS
AS MÃOS DA AVÓ
AS PESSOAS SÃO ESQUISITAS
ASSIM, MAS SEM SER ASSIM: CONSIDERAÇÕES DE UM MISANTROPO
ASTÉRIX NA LUSITÂNIA
BENJAMIM E PAPOILA – O SEGREDO DOS BAGUS
CÃO PULGÃO VAI À ESCOLA
A CARTA COM O SELO DOURADO
CARTAS QUE O PAI NATAL NÃO ESPERAVA
COMO CHEGAR À LUA
OCONTOS DE ARREPIAR: 10 CLÁSSICOS IMPERDÍVEIS PARA JOVENS LEITORES QUE ADORAM SUSPENSE.
HÁ UM FANTASMA NA ESCOLA
JULIETA PIRUETA E O SEGREDO DO PÁSSARO AZUL
LEMBRAS-TE?
O DESFILE ANIMAL
O FEITICEIRO DE OZ
O TEMPO CORRE COMO UM RIO
OS LAPÁRIOS – O DIAMANTE DE OURO
OS WHISPERWICKS: A MALDIÇÃO DOS ARREBATADOS
PAI, E SE FICARES SEM PALAVRAS?
PASSOS DE GIGANTE
O QUANDO OS CÃES DEIXARAM DE FALAR E OUTRAS FÁBULAS UNIVERSAIS
RAIO DE LUZ
SAIAM, BICHOS CHATOS!
O SEGREDO DE FAMÍLIA – VOANDO SOBRE O NINHO DA FAMÍLIA PARDAL
TU ÉS UM MONSTRO?
UM ANO ATAREFADO
UM MELHOR, MELHOR AMIGO
UM VESTIDO COM BOLSOS
(TODA) A CIÊNCIA EM TRÊS GRANDES PERGUNTAS
A INSPIRADORA HISTÓRIA DE ARISTIDES: UM HERÓI DO MUNDO INTEIRO
A MAGIA DO ESPAÇO: HISTÓRIAS EM 5 MINUTOS
DESFILAR PELA HISTÓRIA
EXPLORA AS ESTRELAS E OS PLANETAS E OUTRAS MARAVILHAS DO ESPAÇO
FANTASMAS
FILOSOFIA: UM LIVRO QUE DÁ QUE PENSAR
FRONTEIRAS
MANUAL DE HABILIDADES ESQUECIDAS – SABERES DO PASSADO PARA CRIANÇAS DE HOJE
O VENTO
PERGUNTAS E MAIS PERGUNTAS
SIM, SR. PRESIDENTE
N.B.
– Em cada um dos textos anteriores, foi respeitada a opção do autor, relativamente à utilização do Acordo Ortográfico.
– A apresentação dos livros no Site obedece a uma opção estética, não havendo ordenação por nenhum critério de avaliação.

































































































